Como é bom sentir os velhos sabores de novo, mesmo que apenas por uns minutos.
Antes eu não apreciava direito. Simplesmente colocava na boca e engolia, sem pensar se voltaria um dia a sentir aquele gosto.
Era assim com o repolho com gosto de camarão, onde as atenções estavam todas voltadas para o Muppets Baby na televisão. Ou com as siriguelas das árvores de Campestre tiradas direto do pé e “saboreadas”.
E eu coloco aspas na ação porque as pobrezinhas eram simplesmente jogadas para dentro do estômago. Como se fossem simples remédios para a gripe.
Naquele passado eu estava mais preocupada em me pendurar no galho mais alto antes dos meninos, do que sentir a doçura das bolinhas amarelas gigantescas.
Assim como a preocupação sempre foi maior com o que dizia a respeito em descobrir a cara da babá do Caco e da Pig; do que em ver se eu não estava comendo o caroço do abacate.
Enfim, a questão aqui não é a salada de frutas. Digo antes que alguém me ache louca e ainda venha me explicar que tudo isso eu posso encontrar no setor frutífero de algo que chamam de supermercado.
O que sinto, e sinto muito, é que de fato a gente se acostuma a não sentir mais os gostos.
Troca o abacate por qualquer frutinha sem graça e com menos gordura vegetal. Evita jabuticaba para não ter prisão de ventre, no meio de outras milhares de negociações infelizes.
E o que começa na cozinha vai então se alastrando feito vírus e então tu te acostumas a não mais dar boa noite para os pais antes de ir deitar.
Acostuma-te a não exigir do casamento o mesmo encanto do namoro.
A perder sem lutar.
Adapta-se com o estilo de vida que leva mesmo sabendo que tem potencial para algo diferente.
Tu te acostumas com o trânsito infernal e a ver crianças nas ruas.
Jurou quando jovem que não se moldaria, mas hoje tu já te acostumaste a votar no político menos corrupto.
Tu te acostumaste com o gosto do refrigerante light.
Com trocar o macarrão caseiro da tua mãe por fast-food.
Com usar salto alto só pra parecer mais elegante. Com dar e não receber.
Acostumas a engolir choro porque já cresceu.
E a gente se acostuma com os dias passando cada vez mais rápido e com a velhice chegando.
Então quando o fim da linha chega, tu te tocas que estava funcionando em modo automático esse tempo todo.
Aceitando, naturalizando, engolindo caroços e mais caroços. Tapando o sol com peneira e muito sal de fruta.
E eu não precisei ir para a cama de um hospital ou ter dias contados para perceber isso. Até porque esse não é um caso particular. Eu vejo o mundo todo fazendo uma corrida às cegas.
Vendo a vida passar sem aproveitar o que de fato devemos e dá prazer. Simplesmente consentindo.
Eu vejo pessoas condicionadas e de mãos presas por chicletes.
E pensar que esse quadro pode mudar não é nenhuma utopia.
Eu por exemplo, penso e planejo todos os dias em resgatar tais velhos sabores. Porque eu realmente lembro como é ser a prioridade de alguém, de como era o abraço de pai.
E agora tudo que eu queria era comprar uma piscina de plástico com desenhos azuis de ondinha e comer picolé de mini-saia.
E mergulhar nela como se esse fosse meu último mergulho, como se a água do planeta estivesse pra acabar amanhã.
Quero chupar esse sorvete até sentir o gosto da madeira do palito, como se aquele sabor fosse uma edição limitada.
E aí sim, quando eu chegar no dia do meu juízo eu vou mandar que me levem porque aqui eu já fiz tudo o que pude e não pude.
Eu preciso viver o que ainda posso intensamente, provando tudo quanto é tipo de fruta.
Eu só vou concordar com aquilo que me convém, e na atual conjuntura, já não concordo mais com o tempo perdido e lamentação.
Eu estou indo ali escrever a melhor história.






Por causa de você... 



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